volta.

fevereiro 19, 2009

Nunca disse, não sei porque, sobre a volta na Ilha Grande. Ontem vendo que uma pessoa se perdeu lá, tive certas recordações, que não levam em conta, diretamente, a paisagem e o trajeto feito, mas que chegam mais pertos de uma seqüência de Waking Life.

Quando tudo começa, além de não ter idéia do que seriam dez horas de caminhada, se está cercado de memórias e sensações que não pertencem aquele momento (definido por espaço e tempo). O começo do suor inicia a primeira limpeza de fantasias e inicia quase que um missassague. A concentração surge junto com embalo físico; sensação das longas caminhas: a mente voa. Um andarilho compreende que tempo e espaço são de fato relativos, e acabam perdendo o valor. O tempo e o espaço trazem a proposta de métrica e toda racionalização de orientação, de trajeto mesmo, e preparo emocional, mas quando o cansaço chega, tudo vai para o espaço. Coerência não existe mais, e louco desvairado pode parecer.

Percebe-se que expectativas são frustradas: longas trilhas parecem curtas e as curtas parecem longas. O cansaço independe também. O problema, então, está em outro lugar. Não na trilha, mas em quem anda. Uma grande metáfora pode surgir nesse relato e se assim fizer bem sucedido será, já que andar é a ação mais básica que liga dois pontos. Qualquer que sejam os dois pontos, andar é a questão.

No piloto automático, estabilizado em velocidade de cruzeiro, fiquei. Uma hora. Duas horas. Três horas. O romantismo vinha a se quebrar. “Ta tudo muito bom, mas já ta na hora de chegar”. O cansaço vinha cutucar a mente. E todo ar de serenidade surgia algum tipo de irritação. Já tinha compreendido tudo isso que disse, a questão era andar (sabia disso). Andei bastante, e andei bem. Nunca me senti tão bem. Sozinho obrigado a estar, no meio da mata, distante de qualquer pessoa, só podia falar comigo. Não passei por nenhum momento de questionamento. Pleno estava, viver aquilo tinha que ser feito, e fazer de uma maneira, mesmo que aparente por algumas horas, embarquei em um conceito de independência da felicidade.

Felicidade para mim ali não dependia de nada, só de mim, queria ser feliz, então fui. É engraçado dizer que me sentia conhecedor daquelas terras e que dali tinha aproveitado algo grande para ser levado para casa. Grande fiquei. E confiança não era palavra que vinha ser cogitada a ser dita, jamais em voz alta. Na verdade, nem pensava nisso. Não existia dúvida, receio ou angustia.

O cansaço passou a ser mais do que compreendido, alguns duelos que tive me fizeram o conhecer de perto. Depois de Parnaioca seguia para Dois rios, que seria a penúltima praia até o retorno a Abraão, de onde saí. Já tinha caminhado umas.. três, quatro horas sobre o nascer do sol, nunca vi um dia tão bonito nascer, limpo, sem clichês do crepúsculo. No meio da trilha, agora desconhecida, inicie a caminhada. Ali fiquei um pouco nervoso, não sei muito bem porquê, talvez pela ausência de amigos que me acompanharam até boa parte da volta, mas aquilo me lembrou que humano era, achei bom, continuei. Bem cansado e completamente atordoado por macacos que gritavam sem parar e o velho rugido que permeava quilômetros dentro da mata, comecei a cambalear, pernas fracas já. Cai, mais que merecidamente, sobre uma costa bem inclinada que me levaria até o mar provavelmente, ou acabaria batendo nas várias árvores que tinham pelo caminho, caso não tivesse pegado aquele galho.  Braço esticado segurando eu e a mochila que ali parecia uma bigorna, me vi de cara na trilha que fiz questão de não enxergar. O peito: batido contra a costa. As pernas: se movimentando forçando para subir. Puxei. Respirei. Em pé, sujo, resolvi respirar, “o problema não foi o buraco…”. Respirei. Um gole de água. Segui.

Em Dois Rios algumas experiências já tinham sido colecionadas. Lá o movimento de pessoas era grande. Cheguei à praia e larguei a mochila que deixara marcada as costas, precisava de um pouco de água no rosto e limpar o que já foi superado. Tentei evitar que a bota não molhasse, já que disposição para sentar não tinha, e como concentração não tinha, a bota molhou. Entrei de vez. As pessoas olhavam curiosas porque um louco surgiu da mata enquanto eles estavam com copos de caipirinhas e petiscos a beira mar. Distante deles estava, e aqui fiquei. Voltando da praia para seguir para Abraão, via: um casal discutindo sobre o chão quente e que ele não iria até o antigo presídio, o sujeito meio desconfortável com a terra ou com qualquer forma natural, andava reclamando, já a moça seguia saltitando, não pude deixar de sorrir; um grupo de turistas que chegavam ali só para fotografar algo exótico para o perfil do orkut, engraçado que sorrindo estavam na foto, mas logo foram embora.

Mais a frente algumas casas e um bar. A primeira coisa que pensei, água gelada terá? Comprei e fiz uma refeição com bananas desidratadas que carregava na mochila, ofereci para um senhor que fingia não me ver mesmo sentado logo a frente, não aceitou, mas fiz alguém acordar do mundo de formiga. Segui. A trilha agora é uma estrada, muitas pessoas vinham de Abraão: uma criança planejando sua jogatina de regresso com o novo Wii (que levara para ilha), inocente ele que iria esquecer disso após algumas horas andando.

Via que as pessoas voltavam a aparecer para mim, não gostava da idéia, tinha aprendido a viver só, e elas trariam a lembrança de antigos problemas. Na ultima parte do caminho, esse no meio da mata, atalho que fazia questão, não pelo tamanho, mas por ninguém estar ali, vi um enorme transatlântico. A chegada em Abraão finalmente aconteceu, simplesmente sorri, estava feliz, não pela volta em si, mas por ter significado o término de um aprendizado que levaria comigo.

Mal percebi que começava outro. A sociedade estava ali. Completamente distante de toda aquele movimento de compras de souvenires e grandes esquemas para um passeio imperdível ao redor da ilha (que ironia), procurei a volta pra casa.

O barco chegaria somente quatro horas depois. Um açaí com bananas em uma tigela era a coisa que mais pensava quando abriu este espaço de ócio. Sentado! Comi e descansei.

Lembrava daquele artesão que ali fazia alguns clichês de bruxos e porta incenso que parecem se difundir igualmente para todos esses artistas de rua, fui conversar com ele. Conversamos um pouco, me contou que era de São Paulo mas que já passara pelo Maranhão, Bahia e agora Ilha Grande. Perguntei se lhe incomodava a superficialidade das pessoas que passavam e menosprezavam algumas horas de trabalho dele. Uma aula de conformismo tive, desiludido estava sobre essas pessoas, mas compreendia e vivia feliz com quem amava.

Meio que independente e não tendo nenhuma relação direta, mas tudo que pensava naquele momento era alguma resposta para minha vida que agora era repleta de pessoas e isso de certa forma me incomodava, precisva de alguma coisa que me dissesse o contrário. Tudo veio a cabeça em um fluxo muito rápido de informação, tudo por um filme que havia visto. Em um caso estranhamente similar, na biografia de Christopher McCandless, ele mesmo encerra antes de morrer: “Happiness only real when shared”.

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