acontecimentos.

março 1, 2009

Velha, como três queijos franceses juntos, e mal equilibrada nos longos saltos do seu scarpin, Sra. Chopin caminha pela orla de Ipanema toda manha. Acompanhada pelo seu cachorro, Frisco, que por problema emocionais, tem seu intestino preso, normalmente não pede para paradas na grama. Se Frisco soubesse como expressar sua criatividade do jeito mais singelo possível, Madame Chopin poderia ter conhecido o homem que sua vida nunca teve. E jamais saberia o quanto um pequeno momento pode provocar um grande acontecimento. As questões que envolvem o fracasso, mais que profundo, do passeio desta senhora, vão além do que posso dizer sobre ela agora. E digo desde já, não é uma história de fatos, me refiro, aqui, a acontecimentos.

O Sr. Chopin é um homem bem sucedido perante a sociedade. Carrega toda cultura patriarcal de homem superior. Seguro como pedra, nunca se engana: “com duas pedras de gelo, sim?”, é como sempre pede seu uísque. De certa forma, Sr. Chopin não tem ligação direta com o possível acontecimento, está vinculado à história pelo simples fato de estar no papel errado. Vontade, não tem, de manifestar amor. “Isto já se foi com o tempo” é o que diria… é uma pedra já dura demais, digo eu, e pensa sua esposa.

Ao sair de casa naquela manha, Sra. Chopin: penteou seus cabelos com sutiliza de movimento que jamais teve; pintou-se, desta vez, sem exageros no blush, que deixavam suas bochechas como as de bonecas de porcelana; e assim que pisou em seus sapatos, se manteve desequilibrada como sempre. Tudo se caminhava estranhamente, e ela simplesmente acompanhava. As pernas bambas, não tinha como criticar: “Isso já seria milagre de deus”, pensou. Mal humorada, mesmo nos melhores dias, resmungou para o porteiro algo que ele não entendeu, mas sabia que era uma simples manifestação de rotina da moradora do 1201, e retribuiu com algum grunhido.

Segue ela para rua, toda acelerada: “…que desvie de mim”. Nossa, que medo dela cair daqueles saltos, na verdade até vale uma torcida, ia ser bastante feio, e o orgulho não deixaria ela levantar. Mas isso nunca aconteceu: “Madames não caem do salto”; “Jamais!”; “Jamais!”. No limite da tensão de um bêbado equilibrista consegue atravessar a rua (Ufa!).

No calçadão, já posterior à tensão das “bicicletas assassinas!”, Sra. Chopin anda. Anda mantendo o balanço de salto trêmulo e a coleira de Frisco nas mãos, gentilmente presa pelo indicador e o polegar. Que leveza posso imaginar. Frisco: o cão que não caga por problemas emocionais, só passou a passear depois de velho, essa deve ser a segunda… terceira vez que ele vê as pedras portuguesas em seus arranjos ondulados. Frisco não saia porque sua dona não podia levar. Quando jovem, era muito curioso, qualquer canto de poste, árvore, ou quiosque ele queiria cheirar. Nesses momentos, com muita intensidade, Frisco puxaria a coleira e um grande solavanco seria recebido pelos pulsos da Sra. Chopin. Isso não poderia ocorrer.

Assim como o Sr. Chopin, Frisco não tem fôlego para se apresentar ao mundo que está se exibindo, mas durante os quinze minutos e treze segundos de caminhada, seus batimentos sobem, sobem e sobem a cada instante que a luz aparece. Sua veia, contornada pela pele, exibe a pulsação, se agita por dentro, sua cabeça está fervilhando. Contudo, essa contemplação interior define seu problema intestinal.

Isso se torna bem importante, porque bem a frente está o Sr. Chopin, que havia saído para comprar seus cigarros há horas atrás (isso, só ele fazia). Por um minuto a mais que fosse, ou uma cagada que fosse, Sra. Chopin teria visto muita coisa, muita coisa em um simples momento, que quebraria toda sua paixão pelas pedras que carregava: rubi, esmeralda, topázio e Chopin. Está certada, de todos os lados, pela comodidade do tempo.

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One Response to “acontecimentos.”

  1. Perla Says:

    Muito bom! Hilário, sarcástico, inteligente…Humor refinado.
    Perla


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