Um pouco de jornalismo gonzo.

março 16, 2009

 

Sexta-feira, dia de sol, um bom dia para sair e ver quem voltava, mas às quatorze e dez tinha um vôo para São Paulo. Chegando exatamente na hora devida, dez minutos antes da decolagem, sentei no assento 22A, pessimamente posicionado na janela. Adoro a vista, é o que mais me fascina num vôo, mas eu tenho pernas que se esmagam no espaço microscópico disponível, (…) resolvi acatar o problema e aproveitar. Durante o vôo interromperam minha leitura interminável de On the Road, estava no momento vendo a bela conclusão de Sal Paradise sobre a incerteza da vida quando me ofereceram: um pão de queijo que foi esquentado no microondas naquelas embalagem prateadas, típicas de avião; e uma grande variedade de bebidas (escolhi uma água e um suco). Não consegui mais voltar ao intenso fluxo de leitura, cambaleei mais umas duas páginas, quando: “Atenção tripulação preparar para a aterrissagem”. É bem curto mesmo, dez… quinze páginas.

São Paulo é uma cidade, não tenho dúvidas. Formada basicamente por ilhas de calor, cor acinzentada e decorada por canteiros de mato apático. Estava no táxi: “O que o senhor vem fazer em São Paulo?”. O sotaque já tinha me denunciado, mas o “senhor” na frase me incomodou: “Formal demais não acha?”. A conversa seguiu de forma bem mais interessante, e tive então a oportunidade de explicar minha visita. 

Fui a São Paulo a convite de meu pai. Fascinado por corridas de cavalo queria me levar ao Grande Prêmio Latino Americano, há doze anos que não acontece no Brasil. Enfim esse era o motivo, mas não a história. “Você é de onde no rio?”, ele continuou. 

Pessoas são sempre interessantes, é uma conclusão que chego, cabe a mim ter capacidade de compreendê-las. Aquele senhor (conveniente, no meu caso, usar), era de Aracaju e de alguma forma chegou a um ponto que queria falar. Falar sobre a dificuldade de se ter filhos, mas incrivelmente esboçava um sorriso no rosto.

Já no saguão do hotel tive oportunidade de continuar On the Road. Mas meu pai chegou em seguida. Combinamos imediatamente um outro plano de interesses: comida. Já era noite quando fomos conhecer um dos mais tradicionais restaurantes de lá. Primeira coisa que reparei foi na diferença das feições, rostos bem diferentes em simples quinhentos quilômetros de distância. Tudo bem que se falarmos da Europa cortamos três paises. Mas isso me chamou atenção. A comida muito boa: frutos do mar, né? E duas garrafas de vinho italiano que aprumaram uma discussão, inicialmente sobre vida profissional, mas que chegou a níveis bem profundos.

Na manha seguinte já era dia do Grande Prêmio. Curti a emoção de apostar em riscos altos, uma vez isso me rendeu grande lucro. Ontem também. Mas nesse dia nada ganhei. Ainda mais porque fui medroso. “Os dois favoritos caíram!! Flymetothemoon tropeçou!! E…”. Bom, veja só, preferi a lógica do que o caos, tinha apostado nos dois desastrados. Nada ganhei. Talvez uma lição de imprevisibilidade pra reforçar e jamais esquecer.

O Grande Prêmio foi bom, pelo evento e pelo prêmio do sortudo proprietário (filho da mãe!) que ganhou 250.000 dolares, o maior valor já concedido. A estética daquele glamour, que as pessoas parecem fazer questão de ostentar, me fazia rir. Na entrega dos prêmios (proprietário, jockey, treinador…), um péssimo discurso do Presidente do Jockey que nem soube puxar o saco do Argentino, chefe da Associação Latino-Americana, dizendo: “É sempre bom ganhar de um argentino”, só me fez constatar tudo que julgava. Além disso, convidou sua mulher para entregar um dos troféus, dizendo que ela representava “todas as mulheres que estão hoje enfeitando a festa”. É amigo… objeto de decoração é um bom elogio.

Aquilo já estava me cansando, mas meu pai estava empolgadíssimo para a continuação daquele grande evento, um leilão. Estava na cara que compra nenhuma seria feita, mas só estar lá já o agradava. Resolvi ir dormir, ele me prometeu ligar assim que terminasse, iríamos a uma simples cantina italiana que havia me encantado. Depois de algumas horas sonhando em um turbilhão de informação, acordei. Já era noite, nove e vinte. Passaram alguns minutos e ele me ligou: “estou saindo”. 

Mais uma boa refeição. Seguro e me sentindo conhecedor da cultura italiana, troquei algumas palavras com o maitre, que me explicava sobre vinhos usando termos completamente insanos e finalmente sobre algumas sobremesas. As pessoas são bem seguras em São Paulo. Talvez toda estrutura urbana, intensa demais, a fim de colocar as pessoas andando no lugar certo, gerenciando todo caos de uma grande população, gere uma grande responsabilidade profissional. No metro existe orientação, que no caso, consiste de uma fila cercada de tubos de metal. Um passeio de cinqüenta metros nas ruas pode significar algumas descidas e subidas subterrâneas, para desviar do grande fluxo de carros. Enfim, tudo devidamente arranjado. E foi por isso que ele me explicou, com exímio grau de detalhe, a sobremesa de tartufo.

Meu segundo dia em São Paulo e não tinha visto nada que pudesse chamar de orgânico. Sexta, sábado e agora domingo. Típico dia para um passeio matutino: feiras de artesanato próximas ao MASP. Algumas coisas interessantes, belas antiguidades e raridades. Ganhei uma caneta, um belo presente.

Seguindo por um passeio cinza em qualquer direção, meu pai chama atenção para um parque. É… aquilo era orgânico, de fato… aqueles matos decorativos pintados de poeira eram vagos para mim. Andamos por ali, nada muito grande, é claro. Inúmeras pessoas curtindo seu domingo de caminhada em um cubículo que exigia milhões de voltas para se chamar aquilo de exercício. Tudo bem que tem o parque Ibirapuera, mas não fui, e acho que falaria dele da mesma maneira sarcástica. Depois de completar um volta (dois minutos), vi um grupo de turista que carregavam pranchas de bodyboarding embaixo do braço (não me pergunte…) tirando fotografias, do que poderia ser considerada a única fauna existente ali. Insetos. Estavam espantados com a construção, tão defina quanto a vida deles, da aranha marrom. Isso tudo me remeteu as minhas aventuras na Urca, quando sempre passava por turistas entorpecendo os micos com glutamato monosódico.

No meio dessas grandes experiências na Urca, que divergem por completo de onde estava, um turista de Amsterdã, Tibor, após rir durante algumas horas sobre a palavra Guarulhos, que conhecia por ter feito uma escala em São Paulo, disse: “Eu não entendo porque ainda moram pessoas em São Paulo”. É, em muitos pontos eu realmente não entendo, mas as pessoas pareciam estar contentes, sustentadas por uma grande estrutura que traz segurança e comodidade. Mas me preocupa a distância que se cria entre a natureza e o homem, sendo tão forte a ponto de trazer o medo pela ignorância, provocando a quebra do pensamento sistêmico. Como iria entender sua influência no meio que vive?

 

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One Response to “Um pouco de jornalismo gonzo.”

  1. Pedro Piroco Says:

    Que saudade do glutamato… haahah


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