Sertão acordado

maio 19, 2009

Em uma incontestável percepção de esforço por parte de pessoas que são acostumadas a uma estrutura do estado que vem calentar a preguiça, Fernando caminha quilômetros para o trabalho com sua maleta. Durante as longas horas de caminhada sobre chão completamente seco e rachado que maltrata ainda mais seus velhos sapatos que já adquiriram boca de pato, ele entra em jornadas profundas em seu inconsciente. Antes de retratar todo desgoverno de sua viagem, preciso falar da preocupação que Fernando tem em suas alucinações. “Talvez seja o sol…”; “Talvez seja a falta de comida…”; “Ou será que é falta de água?”; esses questionamentos acontecem de relance, em um lapso de razão. Mas o objeto de interesse é de fato a ficção, não que ele ache desinteressante todo o contexto, apesar de seus dedos ralarem em barro duro, e de seus lábios grudarem quase que instantaneamente quando se tocam, mas ele é escritor: um escritor do sertão; que não escreve sobre sertão; que não vive do sertão, “porque dele não tiro nada além de ficção”.

Conheci Fernando em um sonho, disse-me ele que sonhava também, não tive porque não acreditar, me eduquei a simplesmente levar. Caminhamos longos quilômetros sobre planícies vastas que acompanhavam oscilações de senóides de longos períodos e árvores que apareciam aleatoriamente planejadas em dispersões no distante horizonte. O céu era de caramelo, quase como um sertão romântico, acho que isso era invenção dele, minha parte eram as planícies, que me encantam, e me encantaram no dia anterior em um filme da TV. Me contava sobre sua vida enquanto gaivotas descansavam sobre a térmica à frente: “Eu…. não moro com ninguém não… gosto de estar sozinho, sabe? Sozinho mesmo, por isso ando para o trabalho. Bem, não é bem esta a razão, mas acaba sendo. As pessoas se atrapalham porque olham para as outras e não para si mesmas, e esquecem que tudo que pensam é porque são; é porque pensam de uma maneira que as torna, que as define pelas as atitudes que tomam. Mas entende, nunca estou sozinho… por exemplo, com quem falo agora? Comigo? Ou com você?”. Foi bem estranho meu sonho me colocar como algo subjetivo e se definir como real, jogando toda possibilidade de ficção pra mim. “Fernando, Você escreve sobre o que?”, perguntei com toda curiosidade investigativa, “Eu não escrevo não menino, que tem disse um absurdo desses?”. É verdade, ninguém tinha me dito, mas achava que ele era escritor, na verdade não achava, eu tinha certeza: “Ué? Mas não é?”. “Olhe menino… Escritor é quem escreve, eu não sei escrever, é pra gente letrada, é pra gente que sabe das coisas, eu não sei de nada. Mas eu conto histórias, é isso que faço, minha maleta carrega folhas em branco, lápis apontados, que jamais usarei, me recuso!”. Estranhei bastante a revolta, paramos até de andar porque ele se virou para mim com grande fúria, todo olhar trucado de vermelho, e despejou relutância, mas queria entender o que ele fazia; para onde andava; qual era seu destino de todo dia. “Não to indo pra lugar nenhum não… to só andando mesmo… por ai… pra esfriar a cabeça…”. “Uhn… sei…”.

E tudo se foi, quando a rotina me chamava para mais um dia, não tive a chance de perguntar, e entender o motivo de sua revolta. Fernando era escritor, eu tenho certeza, mas por algum motivo ali relutou, ficou na minha memória a imagem, a primeira imagem desse homem, caricatura de um sertão intelectual que só conheci pela ficção: da melhor maneira, como ele assim também poderia achar. Segue ele estampado, em uma folha manchada de um caderno quase que psicografado. 

Fernando

a lápis. na folha especificada.

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