o começo

maio 27, 2009

“Eu já estou indo, mas depois me conte o que queria tanto me dizer e hesitou, me conte o que tanto te faz tremer. Te conheço há um tempo e reconheço os seus tiques nervosos. Minha irmã, não se afaste de mim, te amo e jamais, jamais, serei vago ao dizer qualquer coisa a você.”

Foi assim que terminei a carta no momento que já partia para as terras afastadas do mar, próximas aos vales verdes do centro do Brasil, em busca de algum lugar que o tédio viesse cativar meu inconsciente. Ainda era novo, não sabia o que viria a se definir na minha vida. Não saberia que o sertão seria o meu lugar de aconchego (acho que tenho atração para ares secos). Prefiro a solidão… tenho sérios problemas quando tudo de bom é extremamente claro, é sufocante demais, vira clichê falar do que é bonito, encarno Carlo Marx – pessimismo é tópico na terra da abundância.

Já era hora de me preparar para embarcar no ônibus que cuspia ares pressurizados dos freios, relinchando, relinchando como cavalo, me chamando para ir enquanto estava ocupado com um saco de pães e um embrulho de queijo. Iria preparar sanduíches… Como sempre angustia foi em vão, houve tempo suficiente para os sanduíches, para comer um deles apavorado; para me sentar e aguardar. 

(…)

Pfff… Oito horas de viagem em um ônibus repleto de formigas sonâmbulas que rastejam em cada parada para um pote de doce ou para uma bebida açucarada – nada falam; oito horas em um ônibus que tem o cheiro do antigo carro da minha tia (passei muito mal uma vez numa viagem para São José dos Campos, nada com o cheiro em si, eram os tempos em que ainda via graça em me alimentar de fast food, mas o cheiro que marca a lembrança). Oito horas em alerta, indo ao banheiro, desesperado, para me certificar que nada jorrasse da minha boca, com um sanduíche inteiro na barriga seria bem perigoso… Suando frio, terminei a jornada. Sabe quando você fica extremamente perdido na vida e pede arrego pra Deus? Tendo um total poço de humildade, mesmo sendo ateu? Era o meu caso. Tinha muito medo que ficaria com aquela cara azul e completamente apático durante alguns dias. Na verdade, não queria deixar de comer o velho macarrão da minha tia Sara. Puta que pariu! Será que ela ainda tem aquele carro?! Ok.. ok… calma… nada de passeios por alguns dias… disfarce.. cite cansaço como desculpa… bem pensado… Virei a esquina, estava ela lá, sentada na cadeira de balanço, olhando o horizonte com tanta paz que me fazia perceber o que buscava nesses ares, e nesse pôr-do-sol perceptível, diferente daqueles na cidade, que simplesmente… opa, já foi. “ Oi Fernando! Meu menino! Como você está? Demorou muuuuito! Achei que não viria mais…”

Deixei minha mala no quarto que sempre ficava. Nela tinham alguns papeis para fazer peso, porque roupa, só a do corpo mesmo, e uma caneta que ganhei do meu avô. “Vamos no centro? Quer rever a todos? Eles sentem sua falta…”. Realmente era interessante, mas de carro não era um bom dia. Fui dormir. A cama tinha minha forma ainda; o cheiro me lembrava da infância; ah…e o vento que soprava pela janela, tudo muito bom. Mas, ainda estava tudo embrulhado no meu estômago. Acalmado pelo cansaço e pelo mal estar, não desgastei a idéia de como seriam meus próximos dias. O que iria fazer ali? Senti falta da minha irmã. Queria saber tanto o que a incomodava… Mas agora o instante é outro. “Amanha vou a pe à cidade enquanto os outros se batem nas rodovias”, me prometi. Iria visitar um velho amigo e ver o que dali poderia surgir. Já havia passados anos desde a última vez que o tinha visto.

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