my bed

agosto 18, 2009

Esse quarto não se arruma. Ele está sempre arrumado, tudo em seu devido lugar. E quando chega a cabeceira nova, o tapete em pouco tempo já vem para combinar e a cortina de repente se mancha de tinta para modernizar. Transição que carrega transição para nunca mais mudar. É sim, constante. Devir. Mudança, não um ponto, um processo eterno: talvez a definição de infinito.

Há quem pense (eu juro), há quem pense que o destino é o fim.

Vou fazer o seguinte então: parar. Mas parar onde? Tempo? Espaço? Pensamento? Falamos aqui sempre de pensamento. Meditai então.

(…) De fato, funciona, um pulo para o repouso de plenitude mas longe é do túmulo real dos dilemas, que assim que abrir os olhos, tropeçarei. A idéia é então entender, assim como o andarilho entende a caminhada, entender o processo, já que sinceramente, sinceramente, não tens opção: a vida te poupa do paradoxo das escolhas do xampu no supermercado.

Entende-se o processo como fim. Podemos assim chamar de colapso da função de onda. O colapso das infinitas dimensões de probabilidades em um único momento que não anda. Resta. Inerte.

Complacente como cão mas perigoso como orquídea, Geovan libera seu papagaio da gaiola como em toda manha. Ele se diverte com o Joe (é assim que ele o chama, não sei porque um nome em inglês, mas enfim, é legal). Joe fala. Hey Joe como vai? “Vou bem. Vou bem”. Mas, joe é um mala. Geovan quer matá-lo, ele fala de madrugada com o rato (animal de hábito noturno) sobre seus problemas familiares de abandono. Isso deixa Geovan zangado. “Geovan mata papagaio mala com alpiste envenenado” seria a manchete do jornal do prédio se ele não tivesse jogado o Joe, querido Joe, de pára-quedas. É meio sádico, mas isso de alguma forma o lembrava de sua infância quando jogava seus bonecos camuflados. Mas não perde tempo, é dia de trabalho. Tudo passa como um evento neblinado na manha de pão com manteiga e café sem açúcar.

Segue andando pela rua já movimentada de seu bairro abarrotado de gente. Copacabana. Andar preciso, com certo gingado do ego, do poder, mas esboça seu sorriso simpático pelos conhecidos rotineiros: o cara da banca; o cara da farmácia; a exibida do salão; o senhor da peixaria que sempre dá tchau jogando escama de peixe, e por sinal ele tem cara de peixe, o peixeiro, Geovan é… Geovan é… normal, mas cearense, cearense normal, complacente, mas perigoso, ele é um cearense normal complacente perigoso.  Que ama os animais, ou não. Que gosta de açúcar no café, ou não.

Geovan cuida da iluminação do shopping Rio Sul, ele que monitora as luzes, cuida delas com grande dedicação. Ele tem idéia de desmistificar o espaço do shopping como um espaço vulgar, superficial, formal, clichê demais. Coloca luzes. Luzes azuis intelectuais nos bancos em frente à livraria. Amarelo sépia nos postes. Se perde na luz. Ele planeja, ilumina, e para. O espaço para por segundos antes das portas abrirem, e depois se mantêm, lá, mudando a cada pessoa que entra, a cada criança que grita e perturba o senhor que almoça com sua mulher; a cada mulher que grita olhaaaaa para a liquidação enlouquecedora; a cada batata frita que cai no chão; a cada passada de dedo gorduroso na vitrine que era para ser brilhante. Geovan entende. Ele entende… E não se aborrece. Ou não.

[My bed, Tracey Emin]

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