O sonho parisiense

maio 23, 2010

Nos últimos meses tem sido complicado. Desde que fui despedido e dinheiro não é problema pela morte do meu tio: fazendeiro, dono de algumas terras destinadas à pecuária, que acabaram sendo transformadas para criar camarões VG em cativeiro em larga escala; lagostas também, mas essas eram poucas, e deixavam a desejar, acho que por estarem longe demais de onde deveriam cresciam em depressão o que tornava sua carne fraca; os camarões não, tem merda demais na cabeça para desenvolverem questões existenciais; viviam felizes pelo menos. Fiquei com boa parte do dinheiro da venda das terras, que agora servem novamente de pasto para gado de corte argentino. Estou rico basicamente. Uma poupança rende o suficiente para eu viver, viver demais talvez.

Não me falta alegria, amor, tristeza, solidão, torturas, luxos nem miséria. Tenho de tudo sinceramente. Estou enjoado. Talvez uns tempos em Paris me fizesse bem. Um pouco de luxo e elegância do modo europeu: fala o quanto precisa, sucinto por segurança. Em paris beberia café e fumaria charuto, ou um belo cachimbo de madeira nobre que compraria do meu melhor amigo de infância: residente na região de Provence ou Côte d’Azur em um vilarejo aconchegante demais para um dia ir e não voltar; é artesão renomado. Aqui é diferente. Pessoas são inseguras e precisam gritar o tempo todo quanto conseguem alguma coisa que elas chamam de sucesso, e quanto não existe sucesso, que sua mãe contemplaria com bom-menino, inventa-se: uma história ou personalidade exuberante; flamejante que chega a queimar os olhos quando se olha de perto. O horror!

Mas enquanto estive aqui, minha cabeça vagou por pensamentos ariscos e confusos; sensações que mudam segundo a segundo. Talvez esteja participando de processos obsessivos consecutivos e não esteja percebendo. Faz certo sentido… talvez. Apesar de ter perdido meu emprego, retomei uns estudos que tinha na faculdade sobre a participação de esquizofrênicos na evolução da psicanálise e ultimamente não tenho cumprimentado pessoas e nem esboçado nenhum um tipo de sentimento. Estou quase que abandonado. Parei comer e acabei engordando, minhas unhas dos pés já enrolam, as flores que tinham aqui em casa tem fungos pelo caule, as formigas controlam o açúcar e se divertem aos domingos no leite. Fui abandonado e estou sendo invadido. “Acho que preciso me vender, deixar que alguém tome conta do que não posso”, foi o que disse a mim mesmo antes de tirar esta conclusão.

Eu acho que vou mesmo a Paris.

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