1.3.83

setembro 30, 2010

sete e meia. desde de que os invernos hoje se tornaram severos demais, os patos reclamam sem parar durante a noite. concordo com eles. reclamaria também se não fosse o luxo da lareira e do cobertor de lã.

fiz sopa de ervilha hoje.

coloquei um pouco limão para evitar que ficasse com aquele sabor tão denso e fechado típico; funcionou bem apesar de ter consciência que exagerei, acho que três gotas estaria bem.

almocei no bar da praça alvoredo, estava completamente aéreo e contente por não ter ninguém para me vigiar e se sensibilizar com a minha frieza. Já pensei durante vários anos da minha vida que a idéia de ter amigos poderia ser boa; bom que isso tudo já passou. lembro da sensação repugnante que sentia quando tinha pessoas a minha volta: as relações sociais começam a base dessa idéia idiota de amor e compaixão e operacionalmente a evolução conduz tudo isso para uma simples questão de padrões, onde identificam-se o sim, o não, e tudo aquilo que agora já não muda, e tem que ser; e quando não é: “você me magoou!”. completamente patético. viver a base de expectativas como se nada pudesse ser novo: a surpresa é um trauma, com a exceção das parodias de comédia romântica; carlos não pode se matar; e eu que sou louco, estou completamente fodido.

vivo na merda. estou mal. muito mal. minha frieza é a única maneira que arrumei para viver não conseguindo ter uma relação sincera com nenhuma pessoa ao longo da minha vida, nem pela minha mãe, ou pelo pai; nunca tive a sensação de sinceridade no tom da palavra de ninguém. fui tido como louco oficialmente pela primeira vez quando disse a um padre que ele mentia durante a missa de domingo em agosto de 68, ele tentou me exorcizar sem sucesso. a ciência tomou conta: levei choques; fui diagnosticado como esquizofrênico principalmente pelo relato do padre antônio. disse ele que estava sendo conduzido por um espírito maligno que mantinha conversas constantes; até 72 estive preso em um manicômio. foram quatro anos de tratamento sem efeito, mas o suficiente para ser julgado apto a andar pelas calçadas. fui punido. me massacraram. até hoje sem motivo.

as pessoas se sentiam mal: eu via nos olhos; podia ser grosso e não estar dentro do tipo linguagem que elas esperavam, mas não era isso; elas sentiam pavor de mim; trago medo a todas elas; trago ódio; trago raiva. tenho certeza que eu sou o pior que poderia acontecer a qualquer um. eu não me importo com o fato de serem todos mentirosos, de forjarem amor por um filho, de forjarem honra e gentileza ou ainda de falsificarem a própria identidade. eles se importam que eu diga que ele matou a filha porque não conseguia sair a noite para dançar com garotas mais novas; eles se importam que eu diga que ele perdeu a perna porque nunca usava; eles se importam porque eu disse e repetirei que vão sofrer para sempre, e a cada ano que passar vão sofrer mais e mais apesar de doarem sangue a cada três meses e dez por cento do seu salário para pessoas que julgam necessitadas. e quando algo acontece, de fato, sou eu o culpado, quem mais senão Deus para assumir a culpa.  ∫

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2 Responses to “1.3.83”

  1. stig Says:

    porra, só vi isso hoje! um dos melhores

  2. arquivo218 Says:

    nossa adoro essa categoria esquizo


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