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Pessoas de moicano não podem rir. Devem ser fortes, tocar bateria e fazer cara feia, não? Nunca imaginaria (na verdade, imaginar na idéia de que esteja dentro perante um estereotipo de que punk bebe e fuma), e jamais um cara de moicano rindo e chorando quando visita Nothing Hill lembrando da Julia Robert em seus belos momentos com o inglês engraçadinho, ou se deliciando frente a televisão com um sorvete Häagen-Dazs num sábado a noite, iria existir. Mas vi! “Porque diabos então moicano usa? Ainda é tempo. Feche o rosto; faça cara de mal; não mostre sentimentos, a não ser raiva, e se caso uma criança passe, nunca(!), nunca(!), fale “ahhhh… que bonitinho”. Tá entendendo? E não inventa de piercings com cores vivas. Você é mau. Muito mau. Lembre-se disso.”
Estava no bosque quando viajei na incoerência de estereótipos. Precisava comer. Comi. Comi bem, pra falar a verdade – salada. De sobremesa, pela duvida, metade de prazer via torta de maça e outra pela torta de limão. Quanto açúcar! Quanta doçura!
O boi da fazenda do meu pai, na verdade da ex-fazenda, se chamava brutamonte, dei esse nome a ele. Gostava dele apesar de sempre bufar quando eu chegava perto, era uma coisa tipo aventura juvenil na mata fechada que todo perigo é possível como João e Maria, mas sem a bruxa, que traz toda emoção pelo medo. Isso me fazia gostar dele.
Passei em frente à chapa, ou para os que preferirem: grill, enquanto filés de ex-vivos estavam sendo colocados para serem “Mal passado por favor! Bem vermelho!”, quando lembrei dos tempos que comia carne, assim como o brutamonte comia mato e provavelmente comido foi por mim algum dia desses passados. Engraçado isso. É cultura. Paradigmas. Sei lá. Sinto saudade do brutamonte, queria saber como ele está, acho que vou chorar, buáááá, buáááá. Não ria intruso! Não ria! Não ria se não te mato! Como ousa achar entretenimento meus pensamentos mais profundos sobre o brutamonte, o boi querido? Ein? Como ousa, ser pobre de alma? Como ousa?
Estava esperando um amigo se despedir, ele voltou tossindo e rindo. “Cara… comi cabelo”, ele disse. Claro que não entendi, e ele explicou: “Po… ela tava com o cabelo apontado pra frente, dei um abraço, e ele entrou no fundo da minha garganta. Deve ta todo molhado. Ela vai reparar, que nem em vai ficar com Mary, naquela cena, sabe?”. Achei engraçado. Estavamos bem alimentados. Nos diferíamos só pelo fato que ele tomou um cafezinho. Tive uma aula e voltei para casa. Estava cansado.

Ilusão

junho 24, 2009

Simplesmente apareceu em minha frente um link para um blog com o post com o seguinte título: The best optical ilusion i have seen all year. Eu completaria, falando tecnicamente, desde de sempre. Segue abaixo.

colors

Teoricamente, profundamente, detalhadamente, o espiral verde e azul são da mesma cor. Cheguei a pensar que era mais uma brinks da internet. Mas, de fato, não é.

Boa sorte.

#1

#2

#3

#4

#5

Ginsberg

junho 5, 2009

holy ginsberg

The world is holy! The soul is holy! The skin is holy!
The nose is holy! The tongue and cock and hand
and asshole holy!
Everything is holy! everybody’s holy! everywhere is
holy! everyday is in eternity! Everyman’s an
angel!
The bum’s as holy as the seraphim! the madman is
holy as you my soul are holy!
The typewriter is holy the poem is holy the voice is
holy the hearers are holy the ecstasy is holy!
Holy Peter holy Allen holy Solomon holy Lucien holy
Kerouac holy Huncke holy Burroughs holy Cas-
sady holy the unknown buggered and suffering
beggars holy the hideous human angels!
Holy my mother in the insane asylum! Holy the cocks
of the grandfathers of Kansas!
Holy the groaning saxophone! Holy the bop
apocalypse! Holy the jazzbands marijuana
hipsters peace & junk & drums!
Holy the solitudes of skyscrapers and pavements! Holy
the cafeterias filled with the millions! Holy the
mysterious rivers of tears under the streets!
Holy the lone juggernaut! Holy the vast lamb of the
middle class! Holy the crazy shepherds of rebell-
ion! Who digs Los Angeles IS Los Angeles!
Holy New York Holy San Francisco Holy Peoria &
Seattle Holy Paris Holy Tangiers Holy Moscow
Holy Istanbul!
Holy time in eternity holy eternity in time holy the
clocks in space holy the fourth dimension holy
the fifth International holy the Angel in Moloch!
Holy the sea holy the desert holy the railroad holy the
locomotive holy the visions holy the hallucina-
tions holy the miracles holy the eyeball holy the
abyss!
Holy forgiveness! mercy! charity! faith! Holy! Ours!
bodies! suffering! magnanimity!
Holy the supernatural extra brilliant intelligent
kindness of the soul!

Footnote to Howl

Aspirina e tylenol

junho 3, 2009

Sempre, caso aqui passe um avião, me jogo ao chão. Se protejam crianças! Se protejam! Tememos uma bomba. Desde que os chineses, severos na busca do desenvolvimento, chegaram à soberania militar, vivemos aqui a base do medo, quase que diário de um ataque. Nunca consegui enxergar o rumo que as coisas poderiam tomar. Tinham tantos caminhos, tantas opções, eu lembro, eu lembro, mas agora é isso. Na época tinha medo que a pós-modernidade fosse conduzir todos a uma vida artificial. Via os comerciais de aspirinas que mostravam solução para a dor de cabeça de uma mãe após um dia de trabalho exaustivo, sendo assim possível brincar com sua filhinha. E comerciais de tylenol na época já abrangiam até dores musculares. Via toda uma tendência a uma dependência da sociedade para as drogas, achava que virariamos seres artificiais. Mas, já na época não estávamos longe disso. Ficava impressionado com a incoerência em campanhas contra o alcoolismo e o tabagismo na principal emissora da televisão seguidas pela atriz mais gostosa bebendo cerveja numa mesa de bar dizendo: essa é a boa! Muita loucura. Todo mundo sentia dor de cabeça toda hora. Todo mundo sentia dor na barriga. Todo mundo estava sempre doente, gripes por todo lado, saía uma, entrava outra… Mas para que se preocupar, uma solução cartesiana para um mundo cartesiano… aspirina e tylenol para eles. E os problemas no coração? Incríveis os avanços nos transplantes, mas, perai, porque precisamos de tantos transplantes assim? Enfim, apaga-se a consequência… verificar a causa nem pensar. Mas hoje não tenho porque pensar nisso. Isso é pequeno frente ao problema que passamos. Bombas, amigo! Bombas! Prontas para explodir em frente a sua casa, caso eles decidam querer um pouco mais de petróleo. Na mesma época das aspirinas, tentávamos ser amigos, e vender mesmo que a preço de banana, barris desse óleo repugnante em troca, claro que isso tudo secretamente, por baixo dos panos, ninguém sabia, de apoio militar. Tudo se virou, ganância em um povo oriental, protetor da harmonia, é mais que incoerência. Enfim, estamos aqui. Hoje asprina e tylenol nem existem mais. Nos preocupamos em sobreviver. Espaço que reclamávamos tanto, temos de sobra; uma planície amarelada como o deserto, seca, se estende por quilômetros, acha-se até um certa beleza nesse caos. Umas poucas árvores, que incrivelmente se mantêm verdes, um verde escuro de vida, se encontram dispersas e uma delas aqui do lado da minha casa. As praias no domingo nem são mais cheias… Cresci com tanta esperança para construção de um belo futuro, mas de fato fui ausente. Teoria sem ação. Me arrependo. Desculpe-me meus filhos. Desculpe-me. Queria ter eu arrumado uma maneira de mandar do futuro uma mensagem, para que o acaso não pegue o mundo de surpresa; uma previsão feita é uma hipótese eliminada. Caos não é obvio, então jamais seguiria a previsão. Um outro caminho surgiria, ruim também, que seja, mas não tanto quanto esse, não tanto, isso aqui é o fim. É complicado. É fácil pensar em retroceder, o futuro é sempre turbulento e inseguro. Na minha situação a esperança está tão longe que soa utópico para mim tudo isso mudar. Eu cansei. Passo para frente a merda que fiz. Assim como fizeram antes de mim, mas agora não por minha culpa. Tentei segurar o caminhão, mas ele passou direto, fudeu tudo. Fui sozinho, e se fossem mais?  Sei lá, e se, e se, e se, e se, e se, e se….

teoria da viagem

maio 16, 2009

Acho que as pessoas deveriam viajar, sempre, na medida do possível. Pra mim, viajar não se resume apenas a se deslocar no espaço, mas sim perceber a terra se transformando conforme vai avançando. Você, parado em algum lugar, assistindo o mundo indo para trás. O que essa constante transformação implica nas pessoas?

Já está na hora de pegar o trem. Deixo nesse momento tudo para trás, tudo que não conquistei, tudo que me decepcionou, deixo nada. Mas sigo nesse momento “Piiiiii!!! Atenção passageiros….”. Árvores que contam os dias que passei nessa terra distante, trilhos que guiam para um novo momento, momento de recomeço, momento de…. momento de… bom não sei, mas com certeza deixo, deixo tudo, pro nada.

“tu ta tu ta tu ta tu ta”. Quase um tic tac marca minha ansiedade. Anseios que me ocupam antes da instância, passo este tempo aguardando pretencioso. Queria despretensão, queria que este vagão viajasse na velocidade da luz, não consigo aproveitar a paisagem… não consigo ao menos cortejar a bela garçonete que passa de um lado para o outro; não consigo me embebedar de amostras grátis de red label; não consigo me entupir de salgadinhos. Apesar de me ocupar com pensamentos distantes, metáforas surgem na transição do verde musgo para o abacate, marcando a chegada do trópico quente e reconfortante. Ah… que alivio: “Poderia guardar meu casaco?”.