A consciência do espaço está muito longe de vir de percepções do cotidiano. Talvez se limitar a submundos, onde sua mente possa se orientar e se sentir confortável, seja uma boa tática de sobrevivência. A limitação do conhecimento, ou simplesmente ignorar certas existências, podem ser bem convenientes. E de fato porque? Porque quero saber? Qual seria o motivo de conhecer? Da obtenção do conhecimento? Às vezes é bastante vago, quase como uma tentativa de obter uma posição divina de sábio, ou simplesmente por poder. Eu? Eu contemplo. Me interessa saber como é o belo, simplesmente por admiração. E essa foto é um exemplo. Uma galáxia inteira em uma foto, não preciso nem citar a distância. A tenha como algo que não consiga nem imaginar, mas para ter idéia: 264719138753664000000 quilômetros da terra; 800 bilhões de sois.  (…)

[Atualização]

Esqueci de chamar atenção para alguns detalhes. Enxerga os pontinhos ao fundo? São outras galáxias…

Galáxia do Sombrero

 

Uma idéia tão fantasiosa, mas que representa algo tão singelo quanto a essência da personalidade de um pássaro. Você tão complexo que não percebe a lógica por trás de suas atitudes, que não entende suas caretas em momentos espontâneos. De onde vieram?

Não me espanto ao te ver confuso e desligado ao falar ao telefone. Uma comunicação pura de canto. Criada dentro de você, ela não é sua, se forma de dentro para fora no oco espaço da sua garganta. Reflexo da sua fisionomia e personalidade, reflete tudo. O canto é a expressão do espírito. E por isso ao ver Chaplin em seu cinema mudo, não me espanta sua semelhança com o id: sem culpa; sem responsabilidades.

Vejamos então (Os pássaros ao nascerem carregam uma informação genética, mas que não basta para formação de seu comportamento. O canto deles é extremamente influenciado pelo ambiente. O que quero dizer é que se pegarmos uma espécie de pássaro, ainda filhote, e de alguma forma impedir que ele ouça o canto de seus pais ou de algum de seus irmãos, ele desenvolverá um som completamente diferente, completamente irreconhecível, para os outros membros da espécie. Isso acontece durante um tempo, que é conhecido como imprinting (Konrad Lorenz). Lorenz estudou esse fenômeno para patos, ele devia se divertir quando conseguia estampar na cabeça de uma ninhada que ele era o objeto a ser seguido. Ele questionava que um animal, se estudado em laboratório, teria comportamento completamente diferente do natural. Mostrou isso fazendo com que (não suficiente ele) um balão fosse o símbolo da mãe de uma ninhada. Todos seguiam o objeto marcado no imprinting mesmo depois de adultos) como uma analogia.

Que canto você tem?

 

Áaaa Áaaa.

 

Áaaa Áaaa.

 

(http://www.flickr.com/photos/36222917@N05/3348388295/

 


Ser híbrido

março 25, 2009

Não sou capaz de enxergar distinção. Diferença é empecilho no diálogo do pensamento. Prendo-me aqui, a definir, o que acredito que seja carregado como conceito por uma nova geração. Geração de diálogo comum, onde mesmo com diferentes linguagens, se prevalece o pensamento.

Relembro da figura de Aristóteles, que antes de: filósofo, político, biólogo, historiador, poeta, era pensador. Pensador de uma época que ambas as áreas do conhecimento ainda se falavam.

Apesar de ter grande admiração por Isaac Newton, devo responsabilizá-lo pela o inicio da separação entre ciência e filosofia. Suas descobertas encheram de arrogância o ambiente cientifico. Começamos a sofrer um processo discriminatório do pensamento, em que a ciência via-se auto-suficiente, encharcada de razão, sobrepondo, todo, e qualquer meio abstrato de raciocínio. Tudo isso pelo triunfo. Triunfo da descoberta das leis da natureza.

Não existiam mais pensadores. Existiam dois grupos distintos: um afirmava com convicção, com bela razão; outro vinha com propostas que perturbavam o cartesianismo frio e vago. É claro que a arte não poderia contribuir diretamente para evolução cientifica. É claro que a ciência não poderia contribuir diretamente para evolução da filosofia. Mas, e indiretamente? Indiretamente por onde?

Jung fala de inconsciente coletivo, teoria abstrata da psicologia, mas que quando vista por meio de um experimento, deve ser acatada. O mundo newtoniano se manteve presente durante alguns anos, a ciência não via possibilidade de ter um novo horizonte. Mas, no início do século XX, Albert Einstein, publica a teoria que quebra o primeiro paradigma da física contemporânea. O tempo deixa de ser absoluto, o conceito de relatividade é embutido em toda aquela dureza de concreto. Uma revolução: o modernismo cientifico, que aparentemente sozinho, já vinha antecedido pelo impressionismo de Monet, Renoir, e Degas, e chegava ao Brasil, exatamente seis anos após a publicação definitiva da Teoria da Relatividade (1916). Em seqüência, agora já com a inércia quebrada, aparece a mecânica quântica, quebrando de vez o pensamento cartesiano. Da realidade ao relativo.

Falo da ciência porque foi ela que se separou, se distinguiu por meio de uma linguagem que soa bem aos olhos da definição, mas que soa precária aos sons de uma música. Pensamento é a essência, linguagem é o meio. Não deve haver separação do conhecimento. Ser híbrido.

Hoje, assim como citado em “O Fim da Certeza”, de Ilya Prigogine (ganhador do prêmio Nobel), vemos que a ciência chega a abstração: “We are observing the birth of a science that is no longer limited to idealized and simplified situations but reflects the complexity of the real world, a science that views us and our creativity as part of a fundamental trend present at all levels of nature”. E conclue, questionando a arte que sempre alertava: “How can we conceive of human creativity or ethics in a deterministic world?”.

Não questiono a matemática, mas será que o pensamento abstrato já não existia? E que pelo sentimento, como reflexo de nossas vontades, fundamentados em tanta complexidade, que torna inviável uma racionalização que desafia o campo artístico na expressão, já não seria suficiente para entender que determinismo no campo da natureza é inviável? Ser híbrido!

O desenrolar da historia define a presença do caos e ausência de fatores preestabelecidos. O enrolar do tempo define que a única intenção é assistir. Assistir você passar. A confusão se define por um lado pela falta de necessidade e pelo exagero de escolhas, basta simplicidade: um banco; uma praça; um muro. Mas por outro, define… por outro não define nada. Aceito a confusão de um modo tão honesto que embarco na aventura. Mas como ele disse, queremos um momento de plenitude, queremos um momento de paz, queremos que tudo se defina, se conclua a ponto do desejo ser superficial. Um momento de comunhão sem barreiras. Não julgo barreiras, se elas existem são para ser ultrapassadas. Que se pule o muro, mesmo que pro lado errado. Mas voto, com minha fé, para o lado certo. Despretensão foi no pré. Agora a história acontece. Apesar da confusão, que chega a mim, e me incomoda, é a única coisa que tenho a oferecer também. Definição é uma coisa que busco ter, mas parece que é cedo ainda. Posso falar, agora, do que chamo de ciclo de experiências… O tempo circula nossos momentos em torno de fatos repetitivos, mas que aos poucos tem seu raio ampliado. Raio que representa campo de vivência. Raio que cresce com despretensão. Raio que se repousa com conformismo. Crescer é sempre a vontade, minha e sua – às vezes omitida. “Não tem vontade?”, perguntei. “Não”, respondeu. Mentira, penso eu. Inércia humana que não vem de massa, mas pela falta de vivência. Inércia tendenciosa que, de fato, desejo no momento certo: na conquista. “Já pensou em ser pai?”, claro. Símbolo da plenitude, que naquele momento, se passa o conhecimento que se tem orgulho. À sensação de estar chegando, fico pasmo com a mudança. Devir. A. À. Ã. Á. a; â, Δ, α. Doideras à parte. Ser colocado como momento singular é a pior coisa da história, só acho engraçado ignorar isso. Talvez por achar que mentes. E que definição é bobagem, “construa ao vivo”. Cara, que engraçado isso. Posso morrer de rir aqui. Reler meus pensamentos sobre milhões de coisas distintas, que para você não devem fazer nenhum sentido. Pior fica, quando sei que sentido não há. É volátil em função do tempo. E que depois, depois, quando tudo der certo…. Sei lá, pedi que me dissesse seus pensamentos, era tudo que queria, na verdade é o que sempre me interessou. Mas aqui no meio da tangência, defino meu desejo como, o que os matemáticos chamam, de Ciclo Limite.

 

Sexta-feira, dia de sol, um bom dia para sair e ver quem voltava, mas às quatorze e dez tinha um vôo para São Paulo. Chegando exatamente na hora devida, dez minutos antes da decolagem, sentei no assento 22A, pessimamente posicionado na janela. Adoro a vista, é o que mais me fascina num vôo, mas eu tenho pernas que se esmagam no espaço microscópico disponível, (…) resolvi acatar o problema e aproveitar. Durante o vôo interromperam minha leitura interminável de On the Road, estava no momento vendo a bela conclusão de Sal Paradise sobre a incerteza da vida quando me ofereceram: um pão de queijo que foi esquentado no microondas naquelas embalagem prateadas, típicas de avião; e uma grande variedade de bebidas (escolhi uma água e um suco). Não consegui mais voltar ao intenso fluxo de leitura, cambaleei mais umas duas páginas, quando: “Atenção tripulação preparar para a aterrissagem”. É bem curto mesmo, dez… quinze páginas.

São Paulo é uma cidade, não tenho dúvidas. Formada basicamente por ilhas de calor, cor acinzentada e decorada por canteiros de mato apático. Estava no táxi: “O que o senhor vem fazer em São Paulo?”. O sotaque já tinha me denunciado, mas o “senhor” na frase me incomodou: “Formal demais não acha?”. A conversa seguiu de forma bem mais interessante, e tive então a oportunidade de explicar minha visita. 

Fui a São Paulo a convite de meu pai. Fascinado por corridas de cavalo queria me levar ao Grande Prêmio Latino Americano, há doze anos que não acontece no Brasil. Enfim esse era o motivo, mas não a história. “Você é de onde no rio?”, ele continuou. 

Pessoas são sempre interessantes, é uma conclusão que chego, cabe a mim ter capacidade de compreendê-las. Aquele senhor (conveniente, no meu caso, usar), era de Aracaju e de alguma forma chegou a um ponto que queria falar. Falar sobre a dificuldade de se ter filhos, mas incrivelmente esboçava um sorriso no rosto.

Já no saguão do hotel tive oportunidade de continuar On the Road. Mas meu pai chegou em seguida. Combinamos imediatamente um outro plano de interesses: comida. Já era noite quando fomos conhecer um dos mais tradicionais restaurantes de lá. Primeira coisa que reparei foi na diferença das feições, rostos bem diferentes em simples quinhentos quilômetros de distância. Tudo bem que se falarmos da Europa cortamos três paises. Mas isso me chamou atenção. A comida muito boa: frutos do mar, né? E duas garrafas de vinho italiano que aprumaram uma discussão, inicialmente sobre vida profissional, mas que chegou a níveis bem profundos.

Na manha seguinte já era dia do Grande Prêmio. Curti a emoção de apostar em riscos altos, uma vez isso me rendeu grande lucro. Ontem também. Mas nesse dia nada ganhei. Ainda mais porque fui medroso. “Os dois favoritos caíram!! Flymetothemoon tropeçou!! E…”. Bom, veja só, preferi a lógica do que o caos, tinha apostado nos dois desastrados. Nada ganhei. Talvez uma lição de imprevisibilidade pra reforçar e jamais esquecer.

O Grande Prêmio foi bom, pelo evento e pelo prêmio do sortudo proprietário (filho da mãe!) que ganhou 250.000 dolares, o maior valor já concedido. A estética daquele glamour, que as pessoas parecem fazer questão de ostentar, me fazia rir. Na entrega dos prêmios (proprietário, jockey, treinador…), um péssimo discurso do Presidente do Jockey que nem soube puxar o saco do Argentino, chefe da Associação Latino-Americana, dizendo: “É sempre bom ganhar de um argentino”, só me fez constatar tudo que julgava. Além disso, convidou sua mulher para entregar um dos troféus, dizendo que ela representava “todas as mulheres que estão hoje enfeitando a festa”. É amigo… objeto de decoração é um bom elogio.

Aquilo já estava me cansando, mas meu pai estava empolgadíssimo para a continuação daquele grande evento, um leilão. Estava na cara que compra nenhuma seria feita, mas só estar lá já o agradava. Resolvi ir dormir, ele me prometeu ligar assim que terminasse, iríamos a uma simples cantina italiana que havia me encantado. Depois de algumas horas sonhando em um turbilhão de informação, acordei. Já era noite, nove e vinte. Passaram alguns minutos e ele me ligou: “estou saindo”. 

Mais uma boa refeição. Seguro e me sentindo conhecedor da cultura italiana, troquei algumas palavras com o maitre, que me explicava sobre vinhos usando termos completamente insanos e finalmente sobre algumas sobremesas. As pessoas são bem seguras em São Paulo. Talvez toda estrutura urbana, intensa demais, a fim de colocar as pessoas andando no lugar certo, gerenciando todo caos de uma grande população, gere uma grande responsabilidade profissional. No metro existe orientação, que no caso, consiste de uma fila cercada de tubos de metal. Um passeio de cinqüenta metros nas ruas pode significar algumas descidas e subidas subterrâneas, para desviar do grande fluxo de carros. Enfim, tudo devidamente arranjado. E foi por isso que ele me explicou, com exímio grau de detalhe, a sobremesa de tartufo.

Meu segundo dia em São Paulo e não tinha visto nada que pudesse chamar de orgânico. Sexta, sábado e agora domingo. Típico dia para um passeio matutino: feiras de artesanato próximas ao MASP. Algumas coisas interessantes, belas antiguidades e raridades. Ganhei uma caneta, um belo presente.

Seguindo por um passeio cinza em qualquer direção, meu pai chama atenção para um parque. É… aquilo era orgânico, de fato… aqueles matos decorativos pintados de poeira eram vagos para mim. Andamos por ali, nada muito grande, é claro. Inúmeras pessoas curtindo seu domingo de caminhada em um cubículo que exigia milhões de voltas para se chamar aquilo de exercício. Tudo bem que tem o parque Ibirapuera, mas não fui, e acho que falaria dele da mesma maneira sarcástica. Depois de completar um volta (dois minutos), vi um grupo de turista que carregavam pranchas de bodyboarding embaixo do braço (não me pergunte…) tirando fotografias, do que poderia ser considerada a única fauna existente ali. Insetos. Estavam espantados com a construção, tão defina quanto a vida deles, da aranha marrom. Isso tudo me remeteu as minhas aventuras na Urca, quando sempre passava por turistas entorpecendo os micos com glutamato monosódico.

No meio dessas grandes experiências na Urca, que divergem por completo de onde estava, um turista de Amsterdã, Tibor, após rir durante algumas horas sobre a palavra Guarulhos, que conhecia por ter feito uma escala em São Paulo, disse: “Eu não entendo porque ainda moram pessoas em São Paulo”. É, em muitos pontos eu realmente não entendo, mas as pessoas pareciam estar contentes, sustentadas por uma grande estrutura que traz segurança e comodidade. Mas me preocupa a distância que se cria entre a natureza e o homem, sendo tão forte a ponto de trazer o medo pela ignorância, provocando a quebra do pensamento sistêmico. Como iria entender sua influência no meio que vive?

 

gerbera é o nome.

março 13, 2009

..feio demais para uma flor.

 

gerbera

volta.

fevereiro 19, 2009

Nunca disse, não sei porque, sobre a volta na Ilha Grande. Ontem vendo que uma pessoa se perdeu lá, tive certas recordações, que não levam em conta, diretamente, a paisagem e o trajeto feito, mas que chegam mais pertos de uma seqüência de Waking Life.

Quando tudo começa, além de não ter idéia do que seriam dez horas de caminhada, se está cercado de memórias e sensações que não pertencem aquele momento (definido por espaço e tempo). O começo do suor inicia a primeira limpeza de fantasias e inicia quase que um missassague. A concentração surge junto com embalo físico; sensação das longas caminhas: a mente voa. Um andarilho compreende que tempo e espaço são de fato relativos, e acabam perdendo o valor. O tempo e o espaço trazem a proposta de métrica e toda racionalização de orientação, de trajeto mesmo, e preparo emocional, mas quando o cansaço chega, tudo vai para o espaço. Coerência não existe mais, e louco desvairado pode parecer.

Percebe-se que expectativas são frustradas: longas trilhas parecem curtas e as curtas parecem longas. O cansaço independe também. O problema, então, está em outro lugar. Não na trilha, mas em quem anda. Uma grande metáfora pode surgir nesse relato e se assim fizer bem sucedido será, já que andar é a ação mais básica que liga dois pontos. Qualquer que sejam os dois pontos, andar é a questão.

No piloto automático, estabilizado em velocidade de cruzeiro, fiquei. Uma hora. Duas horas. Três horas. O romantismo vinha a se quebrar. “Ta tudo muito bom, mas já ta na hora de chegar”. O cansaço vinha cutucar a mente. E todo ar de serenidade surgia algum tipo de irritação. Já tinha compreendido tudo isso que disse, a questão era andar (sabia disso). Andei bastante, e andei bem. Nunca me senti tão bem. Sozinho obrigado a estar, no meio da mata, distante de qualquer pessoa, só podia falar comigo. Não passei por nenhum momento de questionamento. Pleno estava, viver aquilo tinha que ser feito, e fazer de uma maneira, mesmo que aparente por algumas horas, embarquei em um conceito de independência da felicidade.

Felicidade para mim ali não dependia de nada, só de mim, queria ser feliz, então fui. É engraçado dizer que me sentia conhecedor daquelas terras e que dali tinha aproveitado algo grande para ser levado para casa. Grande fiquei. E confiança não era palavra que vinha ser cogitada a ser dita, jamais em voz alta. Na verdade, nem pensava nisso. Não existia dúvida, receio ou angustia.

O cansaço passou a ser mais do que compreendido, alguns duelos que tive me fizeram o conhecer de perto. Depois de Parnaioca seguia para Dois rios, que seria a penúltima praia até o retorno a Abraão, de onde saí. Já tinha caminhado umas.. três, quatro horas sobre o nascer do sol, nunca vi um dia tão bonito nascer, limpo, sem clichês do crepúsculo. No meio da trilha, agora desconhecida, inicie a caminhada. Ali fiquei um pouco nervoso, não sei muito bem porquê, talvez pela ausência de amigos que me acompanharam até boa parte da volta, mas aquilo me lembrou que humano era, achei bom, continuei. Bem cansado e completamente atordoado por macacos que gritavam sem parar e o velho rugido que permeava quilômetros dentro da mata, comecei a cambalear, pernas fracas já. Cai, mais que merecidamente, sobre uma costa bem inclinada que me levaria até o mar provavelmente, ou acabaria batendo nas várias árvores que tinham pelo caminho, caso não tivesse pegado aquele galho.  Braço esticado segurando eu e a mochila que ali parecia uma bigorna, me vi de cara na trilha que fiz questão de não enxergar. O peito: batido contra a costa. As pernas: se movimentando forçando para subir. Puxei. Respirei. Em pé, sujo, resolvi respirar, “o problema não foi o buraco…”. Respirei. Um gole de água. Segui.

Em Dois Rios algumas experiências já tinham sido colecionadas. Lá o movimento de pessoas era grande. Cheguei à praia e larguei a mochila que deixara marcada as costas, precisava de um pouco de água no rosto e limpar o que já foi superado. Tentei evitar que a bota não molhasse, já que disposição para sentar não tinha, e como concentração não tinha, a bota molhou. Entrei de vez. As pessoas olhavam curiosas porque um louco surgiu da mata enquanto eles estavam com copos de caipirinhas e petiscos a beira mar. Distante deles estava, e aqui fiquei. Voltando da praia para seguir para Abraão, via: um casal discutindo sobre o chão quente e que ele não iria até o antigo presídio, o sujeito meio desconfortável com a terra ou com qualquer forma natural, andava reclamando, já a moça seguia saltitando, não pude deixar de sorrir; um grupo de turistas que chegavam ali só para fotografar algo exótico para o perfil do orkut, engraçado que sorrindo estavam na foto, mas logo foram embora.

Mais a frente algumas casas e um bar. A primeira coisa que pensei, água gelada terá? Comprei e fiz uma refeição com bananas desidratadas que carregava na mochila, ofereci para um senhor que fingia não me ver mesmo sentado logo a frente, não aceitou, mas fiz alguém acordar do mundo de formiga. Segui. A trilha agora é uma estrada, muitas pessoas vinham de Abraão: uma criança planejando sua jogatina de regresso com o novo Wii (que levara para ilha), inocente ele que iria esquecer disso após algumas horas andando.

Via que as pessoas voltavam a aparecer para mim, não gostava da idéia, tinha aprendido a viver só, e elas trariam a lembrança de antigos problemas. Na ultima parte do caminho, esse no meio da mata, atalho que fazia questão, não pelo tamanho, mas por ninguém estar ali, vi um enorme transatlântico. A chegada em Abraão finalmente aconteceu, simplesmente sorri, estava feliz, não pela volta em si, mas por ter significado o término de um aprendizado que levaria comigo.

Mal percebi que começava outro. A sociedade estava ali. Completamente distante de toda aquele movimento de compras de souvenires e grandes esquemas para um passeio imperdível ao redor da ilha (que ironia), procurei a volta pra casa.

O barco chegaria somente quatro horas depois. Um açaí com bananas em uma tigela era a coisa que mais pensava quando abriu este espaço de ócio. Sentado! Comi e descansei.

Lembrava daquele artesão que ali fazia alguns clichês de bruxos e porta incenso que parecem se difundir igualmente para todos esses artistas de rua, fui conversar com ele. Conversamos um pouco, me contou que era de São Paulo mas que já passara pelo Maranhão, Bahia e agora Ilha Grande. Perguntei se lhe incomodava a superficialidade das pessoas que passavam e menosprezavam algumas horas de trabalho dele. Uma aula de conformismo tive, desiludido estava sobre essas pessoas, mas compreendia e vivia feliz com quem amava.

Meio que independente e não tendo nenhuma relação direta, mas tudo que pensava naquele momento era alguma resposta para minha vida que agora era repleta de pessoas e isso de certa forma me incomodava, precisva de alguma coisa que me dissesse o contrário. Tudo veio a cabeça em um fluxo muito rápido de informação, tudo por um filme que havia visto. Em um caso estranhamente similar, na biografia de Christopher McCandless, ele mesmo encerra antes de morrer: “Happiness only real when shared”.