ao complexo do subentimento.

agosto 19, 2009

“Disfarce! Ele vem vindo. Corre apressado. João é sempre assim, meio atordoado. Acho que não verá a gente. Sabe o que poderia acontecer, né? Ele irá te ver e sem muita demora vai perceber que não trabalha mais na loja de madeiras do seu avô (aliás, aquela atendente é bem simpática, não?), deduzindo que não conseguirá pagar o que deve a ele: cento e cinquenta reais em uísque e cigarros”, eu disse, assim que viramos a esquina da rua onde moro. Tínhamos, eu e Jorge, acabado de sair do meu apartamento encupimzado prestes a se esfarelar numa sexta à noite.

Uma noite de fuga de problemas, não para mim, para Jorge sim, e o principal, talvez não o mais sério, mas o mais impertinente estava à frente: João, de cabeça baixa, camisa amarrotada não mais que seu cabelo e chinelo nos pés. Nos cinquenta-cem  metros que nos separamos fiz questão de levantar o que poderia acontecer com a nossa noite. Ele começou a ficar nervoso e desde a primeira frase já se mantinha em silêncio e em reza para nada de ruim acontecer, ao mesmo tempo que em suspiros levantava a cabeça lançando um olhar tá-bom-já-entendi-fiz-merda-mas-agora-pode-ficar-quieto.

“Xi!…”, disse ele. (Puf. Puf. Puf. Puf. Puf.. Puf… Puf….. Puf……).

“Não acredito! Que cagão!”, exclamei um sussurro, não queria ser a causa do fracasso da aventura.

“Você não entende… Sabe que arrumei um emprego, né?”. Ele retrucou depois da clausura, João já devia estar no México nessa hora.

“Sei… Sei…”, eu disse.

“Então….”, ele disse.

“Então… Então o que?”, eu disse, como acontece em todas as vezes que ele resume voltas filosóficas e anos de experiência de vida nesse ar preguiçoso de você-entendeu.

“Tudo já se ajustou. Saí da loja de madeira porque não agüentava os caras gritando que era para trazer mais madeirite, e principalmente por causa daquela loira rabugenta dando ordens atrás do balcão. Agora, estou com rumo tomado, como sempre estive. Isso você entende, né?”. E veio a explicação depois de bufadas de esforço. Era retórica a pergunta, respondi com uma levantada de sobrancelha e uma puxada de boca e continuamos andando.

A noite já era noite há um tempo e o comercio já fechara. Os postes iluminavam entre as arvores deixando desenhos fractais no chão e o silêncio dava espaço ao vento. Andaríamos por mais quinze minutos se não fosse um antigo amigo meu, que mora perto mas pouco vejo, passasse oferecendo uma carona. Conversamos os três sobre o que estávamos indo fazer, a conversa se resumiu em frases vagas como: “é.. a gente tá indo…” e o de todo sempre “não sei”. Na verdade me incomoda um pouco este tipo de pergunta, até parece que ele sabe o que vai acontecer no próximo segundo, é tudo meio que subentendido, “Então…”.

O bar estava com uma cara boa, algumas pessoas que estavam sentadas logo na entrada falavam algo sobre pterodactilo, e isso me lembrou uma piada muito engraçada mas sem sentido se for contada assim. Entrei rindo. Jorge estava meio abalado, não que João tivesse deixado ele tão nervoso a esse ponto, mas o fato acendeu velhas questões sobre sua opção de vida, e se seu avô ficaria revoltado com sua saída da loja. Ele é tranquilo, mas bem dramático.

Quando o segundo Martini chegou, a situação era um pouco diferente, não pelo Martini em si, mas pela bela garota que havia sentado ao seu lado. Eu estava lá, contente, pleno, de ego levantado pelas duas japonesas do dia anterior que resolveram se apresentar e fazer propostas exóticas envolvendo algo como um makimono de manga, pepino e dendê. Estava bem com meu Martini, e a garota até que simpática, me colocou na conversa perguntando o que eu fazia, na verdade o meu silêncio não me incomodava, acho que nem a ela, ela parecia interessada em pessoas num modo geral.

“Eu?”, terminando o ultimo gole da taça e indiretamente pensando no tipo de pergunta,  achando estranho que tipo de resposta ela esperava.

“Eu bebo. Quer Martini?”, não quis viajar muito, preferi fazer algo que se aproxime de uma piada.

“Haha. Eu aceito.”, ela disse.

Pedimos mais três, o garçom já entendia o que era, “Traz mais três, por favor”.

Conversamos por mais tempo, Jorge pegou o telefone dela e se despediu, ela tinha que ir, já estava ficando tarde no final das contas.

Depois do sorriso feliz pelo acontecido, Jorge começa algum assunto sobre algo que de fato não importava, mas estava claro que não era sobre aquilo que iríamos falar. Falava ele sobre as copas das árvores e como o comportamento inalterado das palmeiras pelas estações o incomodava, acabamos chegando em algum assunto pesado, pesado demais para ser carregado e encerramos pedindo algo para comer. Pedi um hambúrguer com mostarda e picles e ele um pão com queijo brie e damasco, acho às vezes que ele é gay, ou faz isso só de onda, mas ele é viciado em pão com queijo, eu entendo no final das contas.

“Cara… você é gay.”. Eu disse.

“Aff….”. Ele disse.

“Tá vendo.. olha ai. Homem que é homem não faz aff…”. Eu disse.

Ele se levantou bebeu o Martini em um gole só, junto com a azeitona, e olhou para mim sério, e se virou, e foi ao banheiro.

Voltou falando com o garçom que conhecia, cheguei a cogitar que iria fazer alguma brincadeirinha estúpida.

“Quer mais Martini?”, ele perguntou normalmente.

“Quero..”, eu disse.

Ele se virou para o garçom-amigo e só confirmou para trazer mais dois.

O Jorge é meio psicopata às vezes, meio esquizofrênico, de verdade! Apesar de usar esquizofrenia como definição genérica para problemas psicológicos, nesse caso falo mesmo de esquizofrenia. Ele encarna isso como uma brincadeira, mas ele é um pouco assim mesmo involuntariamente, só faz uma caricatura de si mesmo nos momentos em que está realmente feliz.

De mais dois para simplesmente “Mais, por favor” já estávamos no sexto Martini e não havia mais garota alguma no bar, mas persistiam uns caras mais velhos que fumaram a noite toda e falaram bobagens sobre musica analisando os solos do Joe Cocker. O garçom já estava arrumando o balcão… Jorge resolveu que devíamos ir embora, ele não gosta desse clima de ver o lugar pronto para fechar. Pagamos e agradecemos o garçom. Acenamos a com a cabeça para os caras da outra mesa, não que não tivéssemos falado mal deles durante as conversas na mesa, mas era um sinal de que mesmo eles ali falando bobagem e cuspindo fumaça foram uma companhia e motivo de várias conversas; um agradecimento, eles retribuíram.

Não tinha carona, na verdade, pouco provável, já eram mais de cinco da manha e o sol já estava prestes a nascer. Jorge iria para casa, estamos exatamente no meio entre as nossas casas. Conversamos um pouco. Um aperto de mão, junto com uma olhada e um sorriso de que a fuga foi bem sucedida e que aos poucos tudo se acerta, nos despedimos, então.

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