julho 23, 2011

Jorge já estava estressado pelo tempo ruim que havia estragado sua noite e os pelos do nariz, que haviam crescido demais, também não ajudavam. Encerrou a discussão que começou na escuridão com a água que descansava no copo e sal light, dizendo: “Mulheres também cagam, Julia! Mulheres também cagam…”.

Anúncios

11.1.2011

janeiro 11, 2011

Estava deitando: preciso agora descansar as costas fracas de homem que do corpo pede a mão e o mínimo de esforço das pernas para entrar na escada rolante; encostei a cabeça sobre a areia fofa e que ainda se reservava fresca sob o guarda sol. Como dia estava bonito! E a cidade mais incrível do que nunca! tinha movimento. os turistas já estavam chegando com suas câmeras e suas sandálias fotografando cada metro quadrado da cidade, que aos meus olhos continuava fria e vazia. Meus pés neste momento, fora do alcance da barraca, queimavam feito queijo coalho, não me importei. Estava observando que agora recebia todo o som da praia. Ressoado na cúpula vinha a meus ouvidos como naqueles protótipos instalados nos museus onde duas crianças em extremos do espaço gritam de dentro de uma superfície parabólica: aloooo; e a outra recebe tudo, absolutamente tudo, focado na sua testa que vibra junto com a felicidade de ter escutado sua melhor amiga. Minha mente vibra também e pulo de alegria.

Distante um metro e meio, ou um pouco mais, um casal provavelmente de estrangeiros discutia a personalidade, e investigava o inconsciente das pessoas que passavam. “A praia é extremamente rica…” dizia o homem, que chamarei de Albert. Referia-se ele, a substância, antropológica, sociológica, étnica, ou até como mesmo mencionou: “os valores individuais do ser humano…”. Sua mulher (chamaremos ela de Jenny. Jenny é bom nome para uma senhora texana), Jenny, tinha voz suave mas um pouco rouca. Deveria ser mais um casal típico dos estados unidos: o cara gordo usando uma camisa xadrez com cinza e azul marinho, provavelmente com a escrita pequena sobre o peito de um nome de uma empresa de petróleo; a mulher, cabelos loiros encaracolados, bem cheios, e ressecados pelo sol do amado texas. Albert deveria dizer ao acordar vendo sua bandeira dos estados unidos da américa: “Ahhh estados unidos, agradeço a tudo que me deu neste estado maravilhoso” imaginou… mas disse: “Querida, os waffles estão prontos?”; sempre com muito amor e ingenuidade de um cego americano.

estive no texas uma vez. era novo. o hotel era extremamente… estranho. muito esquisito, apesar de um lustre enorme de cristal na entrada e um lago com plantas. acho que foi caro inclusive. Não existe nada no texas. Andei muito nas calçadas e não via ninguém.

Começaram pelo vendedor de salgados árabes: esfirras de queijo, espinafre, acelga; quibes de carne, requeijão; sempre dizendo “Mustafá. Mustafaaaaá. Olha o salgado do Mustafá…”.

“Querida, você acha que ele foi fundamental na expansão do império otomano para américa ocidental?”, disse Albert.

“Quem Albert?”. Jenny fez uma pausa na leitura da sua revista.

“O Mustafá!”.

“Claro! Claro, Albert!”.

Jenny tinha aprendido a gostar de Kara Mustafá, desde de que soube, que ao ser derrotado e punido com a morte por enforcamento, as ultimas palavras de Kara Mustafá foram: “Esteja certo que você amarrou corretamente o nó.”

Foi um momento incrível as horas que se sucederam. Queria ter conhecido Albert e Jenny McCoy. Queria ter jantado com eles pelo menos. Queria tantas coisas. Mas o mundo é duro e o que pesa é a vida que toca.

O sonho morreu, o fracasso surge da terra germinando lentamente enquanto se sente magoa e tristeza. Em muitas vezes conquistei a idéia de amar o sofrimento tanto quanto o próprio amor, mas acho que isso se passa ou no nirvana ou quando simplesmente se está pouco se fudendo. Na minha vida aconteciam algumas coisas: namoro, casa, família; nada que ninguém nunca tenha visto ou sentido mas que continuam complicadas para todos desde de sempre. Temos carros, máquinas que voam, mas sofremos pelas mesmas coisas… em termos de desenvolvimento humano.. não vejo muito progresso. E pra mim, isso não é bom.

Chorei muito sem saber exatamente porquê. Nada faz sentido agora.

1.3.83

setembro 30, 2010

sete e meia. desde de que os invernos hoje se tornaram severos demais, os patos reclamam sem parar durante a noite. concordo com eles. reclamaria também se não fosse o luxo da lareira e do cobertor de lã.

fiz sopa de ervilha hoje.

coloquei um pouco limão para evitar que ficasse com aquele sabor tão denso e fechado típico; funcionou bem apesar de ter consciência que exagerei, acho que três gotas estaria bem.

almocei no bar da praça alvoredo, estava completamente aéreo e contente por não ter ninguém para me vigiar e se sensibilizar com a minha frieza. Já pensei durante vários anos da minha vida que a idéia de ter amigos poderia ser boa; bom que isso tudo já passou. lembro da sensação repugnante que sentia quando tinha pessoas a minha volta: as relações sociais começam a base dessa idéia idiota de amor e compaixão e operacionalmente a evolução conduz tudo isso para uma simples questão de padrões, onde identificam-se o sim, o não, e tudo aquilo que agora já não muda, e tem que ser; e quando não é: “você me magoou!”. completamente patético. viver a base de expectativas como se nada pudesse ser novo: a surpresa é um trauma, com a exceção das parodias de comédia romântica; carlos não pode se matar; e eu que sou louco, estou completamente fodido.

vivo na merda. estou mal. muito mal. minha frieza é a única maneira que arrumei para viver não conseguindo ter uma relação sincera com nenhuma pessoa ao longo da minha vida, nem pela minha mãe, ou pelo pai; nunca tive a sensação de sinceridade no tom da palavra de ninguém. fui tido como louco oficialmente pela primeira vez quando disse a um padre que ele mentia durante a missa de domingo em agosto de 68, ele tentou me exorcizar sem sucesso. a ciência tomou conta: levei choques; fui diagnosticado como esquizofrênico principalmente pelo relato do padre antônio. disse ele que estava sendo conduzido por um espírito maligno que mantinha conversas constantes; até 72 estive preso em um manicômio. foram quatro anos de tratamento sem efeito, mas o suficiente para ser julgado apto a andar pelas calçadas. fui punido. me massacraram. até hoje sem motivo.

as pessoas se sentiam mal: eu via nos olhos; podia ser grosso e não estar dentro do tipo linguagem que elas esperavam, mas não era isso; elas sentiam pavor de mim; trago medo a todas elas; trago ódio; trago raiva. tenho certeza que eu sou o pior que poderia acontecer a qualquer um. eu não me importo com o fato de serem todos mentirosos, de forjarem amor por um filho, de forjarem honra e gentileza ou ainda de falsificarem a própria identidade. eles se importam que eu diga que ele matou a filha porque não conseguia sair a noite para dançar com garotas mais novas; eles se importam que eu diga que ele perdeu a perna porque nunca usava; eles se importam porque eu disse e repetirei que vão sofrer para sempre, e a cada ano que passar vão sofrer mais e mais apesar de doarem sangue a cada três meses e dez por cento do seu salário para pessoas que julgam necessitadas. e quando algo acontece, de fato, sou eu o culpado, quem mais senão Deus para assumir a culpa.  ∫

junho 25, 2010

Ei!! Oi! muito tempo que não te vejo.

é… verdade, o tempo passou e às vezes as coisas somem simplesmente, você foi uma delas.

Tinha preparado isso?

Não, desculpa, não quis ser grossa, mas, sei lá, você desapareceu.

Tudo bem. Eu tenho essa sensação também… Talvez pudesse ter dito tchau, ou feito uma festa de despedida. Eu convidaria você, lógico. Mas, ao mesmo tempo queria evitar a dor da despedida, deixei um bilhete embaixo da porta e f…

Que bilhete?

É uma metáfora…

Ahh…

…e fui embora simplesmente, mas não tão simplesmente: limpei o tapete e joguei o leite que estragava na geladeira. Não se sinta mal, mas tenho um certo ódio de você.

Isso ainda é uma metáfora?

A parte do leite sim… o ódio… não.

Ódio de que? Ainda sente? Você usou presente na frase, eu vi!

Hoje não tanto, só um pouquinho. Cara você tinha uns vícios de movimento. Eles eram repetitivamente provocantes. Viu! Ai! De novo, toda hora que alguém fala de você, você pega na sua orelha e coça a perna direita logo abaixo do joelho. Cara isso é muito provocativo. Tive até problema no coração por causa disso. E você sempre… que bizarro! Sempre quando o telefone tocava você ia até ele e ficava esperando ele tocar de novo para atender! Porque não atendia logo?!

De repente a pessoa já tinha desligado…

Então… É…… Como você tá?

(…)

Agora na inocência da noite, onde todos os homens são homens, confesso a mim mesmo as estranhezas do meu dia e minhas incapacidades. Não com som de arrependimento, mas com forma contemplativa. É quase que por um certo momento vivesse em mim o super-homem, que ri da singularidade daqueles momentos acima de coerência em um diálogo, ou ainda acima do bem e do mal. Se fui justo, ou se magoei, se te feri, no fundo, no fundo, eu to tentando…. E to tranquilão. Chorando, tropeçando e caindo de cara na merda passada. Não que eu ache manero, é só de alguma forma… interessante. Mas chega a hora em que se para de ver a vida como um filme interessante só por ser sincero, e pelo cansaço vem a mudança.

Oi, tudo bem?

Oi. Você me ligando?

É… achei de bobeira o telefone aqui. E disse: “porque não?”

Ahh… claro. Com essa despretensão toda, Sr. Não-repita-movimentos-que-me-estresso?

É. Vai fazer alguma coisa hoje?

Não sei. E você?

Também não.

junho 1, 2010

Hoje me mantive calmo. Tudo correu bem. Coisas novas estão surgindo. E não falo de nada substancial, como um novo apartamento, melhor que este, longe do barulho dos carros e das confusões familiares; seria bem melhor: larguei minha casa, inúmeros amigos porque falavam demais e estou aqui, em um prédio sem número no centro da cidade. Falo na verdade de coisas extremamente vagas. Como a mudança do cobrador. Um livro que cai em cima da mesa. E… sei lá, o fato de agora preferir meias pretas. Não fui sincero ao me referir a estes acontecimentos como vagos, simplesmente não quero explicar e nem me interessa a proposta de tentar expressá-los como um poeta faria, seria um fracasso além de tudo. A história é realmente longa, ou melhor… ; posso falar realmente em uma linha que não teria nenhum valor (ou realmente não tem). Prefiro deixar assim, aquele ar escroto de mistério que os roteiristas usam em dramas terminados repletos de angustia, e seguem visto dualisticamente como uma história mágica repleta de significados complexos indo de geometria diferencial a antigos escritos de nômades esquimós e, também, simplesmente, como um drama mal terminado.

No meio dessa historia existe outra, muito parecida. Eu, hoje, entendo tudo, e tenho certeza disso. Mas não saberia explicar. Essa é a história. E só!

Tem outra também. Que te amo. Mas não sei mostrar. E essa é a história. E só! E só!

Eu tenho medo de falar demais. Já passei por todos os níveis possíveis de transição de consciência. Já experimentei a loucura, a certeza, e tudo no meio, e inclusive a falta de todas elas. Eu tenho medo de dizer pouco também. Seria o limite de coerência de exposição, mas mais que isso, certas coisa não fazem sentido serem expostas mesmo que viva dentro do peito uma enorme força de gritar: eu te amo; eu guardo meu amor comigo e morrerei com ele verdadeiro, e talvez sinta pena se ninguém o tiver conhecido. Sentirei pena se pensar que não entendo, e claro se achar que não te amo por não falar.

Mas acredito que assim tem que ser. Acredito na beleza coerente num mapeamento conforme entre mente e fisicalidade nas devidas limitações e aceitação de suas transformações como as vozes dos sofistas são as dos deuses.

O sonho parisiense

maio 23, 2010

Nos últimos meses tem sido complicado. Desde que fui despedido e dinheiro não é problema pela morte do meu tio: fazendeiro, dono de algumas terras destinadas à pecuária, que acabaram sendo transformadas para criar camarões VG em cativeiro em larga escala; lagostas também, mas essas eram poucas, e deixavam a desejar, acho que por estarem longe demais de onde deveriam cresciam em depressão o que tornava sua carne fraca; os camarões não, tem merda demais na cabeça para desenvolverem questões existenciais; viviam felizes pelo menos. Fiquei com boa parte do dinheiro da venda das terras, que agora servem novamente de pasto para gado de corte argentino. Estou rico basicamente. Uma poupança rende o suficiente para eu viver, viver demais talvez.

Não me falta alegria, amor, tristeza, solidão, torturas, luxos nem miséria. Tenho de tudo sinceramente. Estou enjoado. Talvez uns tempos em Paris me fizesse bem. Um pouco de luxo e elegância do modo europeu: fala o quanto precisa, sucinto por segurança. Em paris beberia café e fumaria charuto, ou um belo cachimbo de madeira nobre que compraria do meu melhor amigo de infância: residente na região de Provence ou Côte d’Azur em um vilarejo aconchegante demais para um dia ir e não voltar; é artesão renomado. Aqui é diferente. Pessoas são inseguras e precisam gritar o tempo todo quanto conseguem alguma coisa que elas chamam de sucesso, e quanto não existe sucesso, que sua mãe contemplaria com bom-menino, inventa-se: uma história ou personalidade exuberante; flamejante que chega a queimar os olhos quando se olha de perto. O horror!

Mas enquanto estive aqui, minha cabeça vagou por pensamentos ariscos e confusos; sensações que mudam segundo a segundo. Talvez esteja participando de processos obsessivos consecutivos e não esteja percebendo. Faz certo sentido… talvez. Apesar de ter perdido meu emprego, retomei uns estudos que tinha na faculdade sobre a participação de esquizofrênicos na evolução da psicanálise e ultimamente não tenho cumprimentado pessoas e nem esboçado nenhum um tipo de sentimento. Estou quase que abandonado. Parei comer e acabei engordando, minhas unhas dos pés já enrolam, as flores que tinham aqui em casa tem fungos pelo caule, as formigas controlam o açúcar e se divertem aos domingos no leite. Fui abandonado e estou sendo invadido. “Acho que preciso me vender, deixar que alguém tome conta do que não posso”, foi o que disse a mim mesmo antes de tirar esta conclusão.

Eu acho que vou mesmo a Paris.

17.11.2009

novembro 17, 2009

Eu acho que a lógica exposta de maneira concreta pode ser fato tão duro confrontado com os mais doces dos corações.

Acredito na vida nua frente ao espelho, longe dos sonhos e fantasias e perto dos murros e abraços: apertados, desengonçados, humildes e forçados, como de fato são.

Talvez a frieza no coração de Augusto Cartesiano seja pelo vício do processo de petrificação de seus órgãos internos. Não digo aqui como ponto de vista positivo que a lógica ao pé da letra seja minha filosofia budista, mas digo que ela e a compreensão da beleza junto à lama, não só quando maquiada, fazem meu ponto de vista. Não me incomoda a clareza, ela me encanta. E ouse colocar o sol como flor em um poema e não chorar ao ver que ao despertar do dia é luz que brota. Estar perto demais pode ser perigoso, haja coragem… Que falte! Prefiro tocar o túmulo a imaginar o casulo. Não fujo. Sou intruso. Confuso. Mas perduro. O tempo que for. Para ver do mangue a orquídea nascer e quem sabe cedo morrer. Não importa! Não importa. Estou no ponto que digo tente fazer feia a vida construída a base de pétalas translúcidas e esmeraldas e rubis e diamantes por todo lado com a foto no retrato da mais bela mulher. Com ratos e fezes, homens feridos apodrecendo em um grande lago: feridos pelos seus semelhantes a todo custo por conta de meio pão sobre o prato. “Havia de ser um inteiro!” Exclamou.

Tente, tente fazer e juro, juro, não conseguiras.

Estou num ponto onde o passado cai como véu e vejo o mar. “Um peixe com o oceano inteiro para nadar”.  Pronto para trabalhar, para fazer aquilo que amo sem pensar em nada mais. Em nada mais além da própria vida presente. O beijo. A respiração. O passo. A flor que cai após brisa lenta que passa em momento crítico entre primavera e verão sobre o banco que repousa o velho que baba na poça da chuva de ontem onde pousam mosquitos com esperança de ali formarem família, como a que ele não tem; e nem queria ter; não precisaria ter; se recusaria a ter; mas sente saudades do dia que brigou com eles por causa de seu problema de alcoolismo. Sonharia ele brigar de novo! Chegaria a esse ponto, mas sabe…? Chegando a esse ponto, um beijo repousaria sobre a bochecha da filha que jamais foi esquecida e a mulher por mais que magoada jorraria lágrimas pelos olhos por conta da transformação que um sentimento tão forte quanto esse pode dar … que por tudo, apesar de tudo, jamais quiseram excluir alguém. Não podia ser diferente.

Estou num ponto onde o futuro não existe.

Estou num ponto.

No ponto.

Não mais.

Me vem a paz instável do que é viver sobre o descobrimento das próprias coisas que dei por concluída. Me vem o medo depois de dias de sofrimento sobre chicotadas e maus-tratos de pessoas que pareciam gozar ao me torturar. Me vem a fome, de gula, já que prazer é escasso na terra onde o suor é preciso na escalada em grau negativo de superfície coberta de vaselina e cacos de vidro. Me vem a angústia. Me vem a raiva! A raiva! A raiva! A raaaaaaaiva!!!

Tão boa quanto o beijo

Dolorosa frente ao tonto

Que tonto

Tente, tente, e não conseguiras.